Retrato do primeiro afeto

07/02/2024
O que nos afeta enquanto seres relacionais? A palavra, o olhar, o toque? 

 

 Aprendemos desde ao nascer e até antes disso que existe um movimento para morrer e renascer, como um caminho necessário para o desapego.

Como assim?

O significado da própria identidade e do outro,  separação e união,  partilha e retenção, demanda a experiência a partir de um diálogo intimo com o meio exterior. 

Q nascituro nasce com algum tipo de estratégia para a cura trauma ao nascer? Nesse aspecto prefiro dizer (re)nascer. Ora morre-se uma fase de vida para nascer em outra. E não só isso! Biologicamente este ser não peixe, mas quase vivendo como sendo, abre seus pulmões para o ar atmosférico! Teria ai a primeira sensação da pulsão de morte, por entender de outra maneira a de vida?

Numa hipótese de molde biológico evolutivo a marca desse trauma primal poderia corresponder: 1) à separação de um ambiente seguro,  2) da possível sensação da perda de um membro (exemplo análogo),ie, por entender ser parte do corpo receptor (materno); 3)  sensação ao nascimento de "extração,  cesariana e "expulsão" no parto normal; 4)abertura diafragmática e circuitos bronquioalveolares para o ar  entrar e depois  aprender à respirar.

Bem, certamente todas hipóteses podem ser uma verdade, ao conhecimento do Campo biológico,  emocional, racional e mental. Então, ao entendimento que a primeira lição da vida e o trauma, o mestre para seu entendimento seria o instinto?

Somos seres animais e o instinto resiste aos milênios e nos convida a leitura da pequena fera? Nasce faminta de desejos, da necessidade vegetativa,  do sentir o cuidado ou abrigo, segurança até ser independente? Parece que no adulto essa cicatriz ou ferida possa ainda estar presente. Queremos independência mas não aguentamos a solidão,  unimos aos pares querendo o cuidado da imagem infantil e agimos como supostos adultos com autonomia, mas exige-se o olhar do outro. 

Para viver ou (re)nascer ( termo para mim melhor aplicado exposto acima), cada indivíduo "afogou-se " ao contato com o "ar". Não peixe, não anfíbio, um mamífero com marcas evolutivas.

O bebê ao ser forçado à respirar  marcou seu primeiro trauma, ie, a primeira lição e o aprendizado demanda coragem e resiliência. Um processo de "autoluto"?  Que loucura pensar assim, não?

(Re)nascido  ao primeiro exercício do desapego, equivale à pensar que nascemos com inconsciente primitivo e recheado de aprendizado espiritualista, semelhante ao budismo. Pois, o desapego é imprescindível para evolução espiritual ou iluminação. 

 Tanto o desapego ou a releitura corpórea para viver nos coloca na primeira experiência do Trauma , portanto, o primeiro afeto.

Naturalmente toda evolução corpórea leva a assimilação do aprendizado inconsciente. Noutra perspectiva,  a consciência de ser alguém separado da mãe levará um tempo,

Aos poucos nova separação,  um segundo trauma? O exercício racional das coisas demanda estratégia, pois chorar não é mais suficiente para a atenção,  e outras linguagens surgem.

 Qual poder afetivo da separação? Atemporal? Existe uma medida de espaço e tempo, considerando o adulto repetir o trauma separação como fonte dos desvios emocionais, comportamentais? Que lição difícil de entender, não?

 Embora, dados demonstrem não sermos os únicos animais capazes disso,  há uma corrida evolutiva, perceptiva e graduada. 

 Quem foi capaz de "curar " o trauma primal? O instinto? Como seres emocionais, individuais o padrão da perda, separação,  nem sempre expressa o mesmo grau e significado. Obvio que somos influenciados pelo ambiente,  cultura, sociedade. Num termo mais concreto teríamos a Epigenética reguladora dessas respostas? Certo que gatilhos ocorrem e lembranças remontam um passado desconhecido ao consciente.  Mas, aqui o foco é como o primeiro e segundo afeto,  das duas primeiras separações repercutem em cada um?

Estaríamos falando de resignação primordial? Caso essa logica seja uma verdade,  nascemos como feras e marcadas por uma dor, tendo algum mecanismo ao entendimento do viver ou reviver? A morte da fase de vida não gera outro ser, mas terá que compreender estar separado,  buscar sua identidade e autonomia. Depender de algo ou alguém é transitório!

Será então que uma sabedoria evolutiva,  estrutural ? Seriamos aprendizes do mestre que um dia devemos ser? 

 Se isso for verdade porque estamos como crianças chorosas, recheadas de lamentações,  fragilidades emocionais? 

 Muito há a de se pensar,  questionar e brincar com possibilidades,  mesmo se imaginárias! 

 Em meu livro, Eu e meus "eus" , falo um pouco mais desse modo de ver a vida, sentir, receber as lições para depois ensinar o que conhece e infinitamente continua na jornada do conhecimento. 

Por Adriana Helena Moreira, uma eterna buscadora.